A figura histórica de Jesus: vida e pregação

Análise da figura histórica de Jesus de Nazaré, cuja pregação representou um marco na história da humanidade.

O Pagamento do Tributo (Masaccio), particular

Sobre Jesus de Nazaré já se disse de tudo e o contrário de tudo. O que é certo, é que sua figura foi o ponto central de toda a história.

O objetivo destas páginas não será o de fornecer respostas sobre quem foi ou, sobretudo, sobre quem seja Jesus a partir de um ponto de vista do culto a ele reservado, ou seja, o cristianismo. De fato, tal pretensão seria um tanto que audaz, já que para muitos Jesus não é meramente um personagem histórico, mas sim o próprio Deus, e enquanto tal, ainda vivo em meio a nós. Ele mesmo, segundo os cristãos, é a vida, e a vida eterna.

O que me proponho tão somente é tentar fornecer algumas perspectivas históricas em resposta a algumas perguntas que me foram feitas.

O problema, porém, é definir o que seja a história em relação ao tema “Jesus”. Antes de mais nada, é necessário precisar que o termo “história” deriva do grego ἱστορία (historía), que significa investigação, e tem a mesma raiz ιδ- do verbo ὁράω (orao, ver, um verbo com três raízes: ὁρά-; ιδ-; ὄπ-). O perfeito ὁίδα significa literalmente “vi”, mas, por extensão, “sei”. Se refere, na prática, ao observar e, de consequência, ao conhecer após ter experimentado: o mesmo sentido que encontramos também na raiz do verbo latino vídeo (v-id-eo e no termo de origem grega “idea”). Acrescentaria, ainda, que um pressuposto da investigação histórica seja, além do senso crítico, a inteligência, no sentido literal do termo latino: intus lĕgĕre, ou seja, “ler dentro”, ir fundo, sem deixar de manter a capacidade de considerar o conjunto dos fatos e dos eventos.

Tendo presente esta consideração, como colocar-se, do ponto de vista da investigação histórica, diante do “problema” Jesus de Nazaré? Jean Guitton[1], filósofo católico francês, que dedicou a própria vida à investigação sobre a figura do Nazareno, elaborou três soluções possíveis:

  • Solução crítica: Jesus de Nazaré verdadeiramente existiu e a origem do cristianismo é um fenômeno histórico. Tal abordagem deve rejeitar, porém, todos os prodígios e os fatos inexplicáveis.
  • Solução mítica: Jesus de Nazaré jamais existiu. Tudo o que foi escrito e dito sobre ele é invenção de um grupo de fanáticos.
  • Solução da fé: Jesus de Nazaré não só existiu, mas tudo o que está narrado nos evangelhos e nos escritos canônicos do Novo Testamento corresponde à verdade.

Três simples perguntas sobre Jesus

A primeira pergunta é: Jesus existiu? A esta primeira pergunta pode-se responder imediatamente de modo bem claro: sim. Pode-se excluir, então, a hipótese mítica, ou seja, que ele seja fruto da imaginação de alguém, dado o estudo meticuloso entorno a ele e ao seu tempo, como nos anos mais recentes, em termos de hermenêutica bíblica, historiográfica, arqueológica, linguística e filológica.

A segunda pergunta: ele foi realmente importante? Sem sombras de dúvida, tanto que a nossa era é calculada a partir do seu nascimento, “depois de Cristo”. Por outro lado, para muitos, quase para todos os que dele ouviram falar, até mesmo para os irredutíveis adversários do cristianismo e do culto a ele tributado por seus fiéis, a sua é uma mensagem incomparável na história.

Deus na cruz: ainda não se entendeu o assustador mundo dos pensamentos oculto neste símbolo? Tudo o que sofre, tudo o que está pendurado na cruz, é divino… Estamos todos pendurados na cruz, portanto nós somos divinos [2]. Fiedrich Nietzsche

Se se olha a criança como a um ser humano, apesar da falta de elementares relações sociais e culturais, isso é devido somente à influência da tradição judaico-cristã e à sua especifica concepção da pessoa humana [3]. (Richard Rorty)

O cristianismo foi a maior revolução que a humanidade já realizou: tão grande, tão abrangente e profunda, tão fecunda de consequências, tão inesperada e irresistível em sua atuação, que não é de se admirar que tenha aparecido ou possa aparecer um milagre, uma revelação do alto, uma intervenção direta de Deus nas coisas humanas, que Dele receberam uma leia e uma direção completamente novas [4]. (Benedetto croce)



Terceira pergunta: quem ele foi realmente? Árdua resposta! Aquele que escreve pode somente aplicar os critérios daquela que foi denominada a “Terceira busca”[5] (Third quest) sobre o “Jesus histórico” e, enquanto histórico, limitar-se a observar e a analisar determinados dados que alguns autênticos gigantes neste campo já descobriram em abundância nos seus monumentais livros sobre o argumento, e me refiro aos italianos Giuseppe Ricciotti e Vittorio Messori, ao estudioso israelense (judeu) David Flusser, ao alemão Joachim Jeremias e a um outro ilustre alemão, Joseph Ratzinger, Papa Bento XVI. Os expoentes desta Terceira investigação partem do pressuposto formulado por Albert Shweitzer: não se pode rejeitar ideologicamente tudo aquilo que nos evangelhos e no Novo Testamento há um caráter miraculoso, descartando-o por não apresentar conformidade aos cânones do racionalismo iluminista. Além disso, como acrescenta Bento VI no seu livro Jesus de Nazaré [6], os limites do método histórico-crítico consistem substancialmente em: “deixar a palavra no passado”, sem poder torná-la “atual, moderna”; “tratar as palavras com as quais se confronta como palavras humanas”; “subdividir ulteriormente os livros da Escritura segundo as suas fontes, mas a unidade de todos estes escritos como ‘Bíblia’ não lhe parece um dado histórico imediato”.

Poderíamos afirmar, então, que o pressuposto de base da terceira solução sugerida por Jean Guitton, aquele da fé, não é tanto o crer forçadamente, mas sim deixar aberta a possibilidade de que aquilo que está escrito nas próprias fontes seja verdadeiro.

Onde Jesus nasceu?

Dado que a Terceira busca sobre o “Jesus histórico” insiste muito sobre a necessidade de analisar o contexto cultural, religioso e linguístico no qual ele viveu, é oportuno fazer algumas considerações a este propósito.

De onde era Jesus? Já me ocorreu de ouvir alguns dizerem que era “israelense”; outros, ao contrário, que era “palestino”. Nenhum dos dois termos está correto, enquanto os israelenses são os cidadãos do Estado moderno de Israel (e podem ser hebreus, árabes muçulmanos ou cristãos, etc.); os palestinos, ao contrário, são os modernos habitantes de língua árabe da região que hoje conhecemos como Palestina.

Jesus, então, não era israelense (mas sim israelita) e nem palestino, dado que, na sua época, a assim chamada Palestina não era assim denominada. Tal nome lhe foi atribuído pelo imperador Adriano somente a partir de 135 d.C., após o final da Terceira Guerra Judaica, quando a ex-província da Judéia, já esvaziada de seus habitantes judeus, foi rebatizada, por desprezo a este povo, com o nome de Syria Palaestina (a Palestina propriamente dita era, até aquele momento, uma estreita faixa de terra, mais ou menos correspondente à atual Faixa de Gaza, onde se encontrava a antiga Pentápolis Filisteia, um grupo de cinco cidades-estados habitadas por uma população de língua indo-europeia historicamente hostil aos judeus: os filisteus).

No início do primeiro século da nossa era, portanto, o que havia sido o antigo Reino de Israel, então dividido em dois reinos: o de Israel e o de Judá, tinha já deixado de ser um Estado independente e estava dividido entre a Judéia, uma fortaleza do judaísmo ortodoxo, imediatamente sujeito a Roma e governado por um praefectus, e as outras duas regiões históricas, ou seja, a Galiléia e a Samaria. Esta última, planalto central do que hoje se conhece como Palestina, era habitada pelos samaritanos, descendentes de colonos asiáticos importados pelos assírios no século V a.C., na época da conquista do Reino de Israel.

Os notáveis daquela área, de fato, foram deportados, enquanto os proletários ficaram no local e se misturaram aos recém-chegados, dando origem a um culto inicialmente sincrético, mas depois refinado, tornando-se monoteísta, mas em contraste com o culto judaico: se os judeus consideravam-se descendentes legítimos dos patriarcas e guardiães da Aliança com Jahwé, da Lei e do culto professado no Templo de Jerusalém, os samaritanos assim também pensavam de si mesmos e tinham seu próprio centro de culto em um templo no Monte Gerizim, perto da cidade de Siquém-Sicar.

Galiléia na época de Jesus

Quanto á Galileia, esta era um território com uma população mista (ainda o é no atual Estado de Israel: metade árabe e metade judia): aldeias e cidades judaicas (como Nazaré e Caná) ficavam ao lado de cidades de cultura greco-romana, portanto pagã (por exemplo Séforis, Tiberíades, Cesareia de Filipe). A população da região, mesmo quando de fé e cultura judaica, era estigmatizada pelos habitantes da Judeia, os quais se orgulhavam de ser mais puros e refinados que os rudes e briguentos galileus (que, também em base a recentes descobertas arqueológicas, não tinham nada a invejar em relação aos irmãos do sul em termos de observância.

Diversas vezes, ouvíamos dizer a respeito de Jesus, como está escrito nos Evangelhos, que “nada de bom pode vir de Nazaré ou da Galileia”.  Além disso, não apenas os evangelhos, mas também alguns poucos escritos rabínicos remanescentes daquela época nos dizem que os galileus também eram ridicularizados pela maneira como falavam. O hebraico e o aramaico (lingua franca falada em todo o Oriente Médio da época, inclusive pelos israelitas após a deportação para a Babilônia iniciada em 587 a.C., ano da conquista de Jerusalém e da destruição do primeiro templo por Nabucodonosor), como todas as línguas semíticas, possuem muitas letras guturais e sons aspirados ou laríngeos. E os galileus proferiam muitas palavras de uma maneira considerada engraçada ou vulgar pelos judeus. Por exemplo, o nome יְהוֹשֻׁעַ, Yehoshu‛a, era por eles pronunciado Yeshu, daí a transcrição grega Ιησούς (Yesoús), depois passada ao latim como Jesus, e por igual ao português.

A Galileia, entretanto, constituía um reino vassalo de Roma e era governada pelo tetrarca Herodes, um rei de origem pagã literalmente colocado no trono por Augusto, de quem ele era praticamente um fantoche. Herodes, conhecido por sua crueldade, mas também por sua astúcia, havia feito de tudo para ganhar a simpatia do povo judeu (e também tudo para afastá-lo), o qual nunca o aceitou, também e sobretudo porque ele não era de sangue judeu.

Entre outras coisas, ele mandou expandir e embelezar o Templo de Jerusalém, que fora reconstruído pelo povo de Israel após seu retorno do cativeiro babilônico. As obras para completar a estrutura ainda estavam em andamento enquanto Jesus estava vivo e foram concluídas apenas alguns anos antes do ano 70 d.C., quando o próprio santuário foi totalmente arrasado durante a destruição de Jerusalém pelos romanos, liderados por Tito.

Lago da Galiléia, fotografado por Gerardo Ferrara em 2017

Ao lado, mais a nordeste, já às margens orientais do lago da Galileia, uma confederação de dez cidades (a Decápolis) representava uma ilha cultural helenizada.

A terra e os “concidadãos” de Jesus

A este ponto, deve-se recordar que no Israel da época, o judaísmo não era de forma alguma um bloco uniforme. As principais seitas, ou escolas, eram as seguintes:

  • Os saduceus (em hebraico: צַּדּוֹקִים, ṣaddōqīm); estes tomaram o nome de seu “fundador”, Saddōq, e formavam a classe sacerdotal e a elite da época. Eram funcionários religiosos ricos, dedicados ao serviço no templo, que não acreditavam na ressurreição dos mortos nem na existência de anjos, demônios e espíritos) e acredita que a única lei a ser seguida era a Lei escrita, contida na Torá (תוֹרָה), a saber, os primeiros cinco livros da Bíblia (Pentateuco);
  • Os fariseus (em hebraico: פְּרוּשִׁים, perūšīm, que significa “separados”); eram piedosos observadores da lei, acostumados a se concentrar até nas minúcias da própria lei, que para eles não era apenas a escrita (Torá), mas também e acima de tudo oral, a halakhah (הֲלָכָה), que se estendia ás mais variadas ações da vida civil e religiosa, e portanto iam desde as complicadas regras para os sacrifícios do culto até a lavagem da louça antes das refeições. Os fariseus eram muito semelhantes aos judeus ultra-ortodoxos de hoje, dos quais são na prática os precursores, definindo-se como “separados” por se considerarem adversários de tudo o que não fosse puramente judeu, isto é, eles próprios. Basta pensar que a população era por eles definidas עַם הָאָרֶץ (‛am ha-areṣ, povo da terra, em sentido depreciativo);
  • Os herodianos, cujo sensus fidei não é totalmente claro, mas cuja fidelidade ao rei Herodes era bem conhecida. Eles também deviam ser muito próximos dos saduceus, já que estes eram a elite mais propensa ao poder tanto de Herodes quanto dos romanos, firmemente determinados a manter os privilégios derivados do status quo;
  • Os doutores da lei, ou escribas (em hebraico: סופרים, ṣōfarīm); eles codificavam progressivamente tudo sobre o que era possível legislar. Por exemplo, na época de Jesus, o objeto mais debatido nas duas principais escolas rabínicas dos grandes mestres Hillel e Shammai era se seria permitido comer um ovo feito por uma galinha no sábado;
  • Os zelotas, cujo nome português deriva do grego ζηλωτής, zelotés, mas que em hebraico era definido como קנאים, ou então qana’īm: ambos os termos, grego e hebraico, significam “seguidores” e referem-se ao zelo com o qual este grupo aderia à doutrina do judaísmo, também no sentido político (entre os discípulos de Jesus há um chamado Simão, o Cananeu, atributo que não se refere à sua origem geográfica, mas ao pertencimento ao grupo dos qana’īm, ou seja, os Zelotas). Eles eram chamados pelos romanos de Sicarii, por causa dos punhais (sicæ) escondidos sob a capa com a qual matavam aqueles que violavam os preceitos da lei judaica;
  • Os essênios, não mencionados nas Escrituras judaicas ou cristãs, mas de quem falam Flávio José, Filão, Plínio e outros. Eles constituíam uma verdadeira associação religiosa, concentrada particularmente em torno ao Mar Morto, perto do oásis de Em Gedi (o já mencionado Qumran, por eles chamado Yahad, que significa comunidade). Viviam no celibato, rigidamente separados do resto do mundo, e rejeitavam o culto do Templo e as outras seitas judaicas, ambos considerados impuros. Para participar da associação era necessário fazer um noviciado, a que se seguia a efetiva filiação. Os essênios eram literalmente fanáticos pela pureza ritual (haviam vários banhos rituais em Qumran), bem como avessos às mulheres. Entre eles non existia propriedade privada e era proibido manter armas. Foi levantada a hipótese de que Jesus e João Batista eram essênios, mas isso se choca com a universalidade de sua mensagem (aberta, entre outras coisas, às mulheres, o que, como dito, era inadmissível para os próprios essênios);

Estes são, portanto, os grandes grupos em que se dividiu o judaísmo da época de Jesus. Após a grande catástrofe do ano 70 d.C. e a partir do ano 132 d.C., os únicos que sobreviveram, do ponto de vista doutrinal, foram justamente os fariseus, dos quais o judaísmo moderno descende.

Deve-se dizer também que o povo, as pessoas comuns, embora em grande parte simpatizasse com os fariseus, era por estes considerado execrável, como já havíamos evidenciado. É precisamente para aquele povo ridicularizado por toda a casta sacerdotal, espiritual e intelectual de Israel que se voltarão primeiro João batista e depois Jesus. E será precisamente este povo a acreditar primeiro na mensagem do Nazareno, contra quem, em vez disso, se juntarão os fariseus, os escribas e os saduceus, os quais eram inimigos uns dos outros.


A espera de um messias

O conjunto complexo do Antigo Israel é o caldeirão em que fervilha uma espera muito particular e devota. A espera de quem? De um libertador, de um ungido pelo Deus Onipotente, que, como fizera por Moisés, o próprio Deus e levantaria para libertar seu povo da escravidão e da dominação estrangeira. Desta vez, porém, acreditava-se, seu reinado não teria fim, já que este Messias (מָשִׁיחַ, Mašīaḥ em hebraico e Χριστός, Christós em grego: ambos os termos significam “ungido”, ou seja, ungido pelo Senhor como os reis a partir de Saul e de seu sucessor Davi) não teria sido apenas um profeta, mas, como evidenciado nos papiros do Mar Morto e nas expectativas dos essênios de Qumran, um rei-pastor e um sacerdote.  

Nos anos imediatamente anteriores ao nascimento do Nazareno, esta espera se faz sempre mais fervorosa: presumíveis messias florescem por toda parte e, com eles, revoltas sistematicamente reprimidas com sangue (recorde-se de Judas, o Galileu, nos anos 6-7 a.C.); mas florescem também piedosas comunidades que, em virtude de uma profecia muito precisa, esperam o advento de um libertador. Sabemos, de toda maneira, que naquela época de grande estabilidade para o Império Romano, mas de fervorosa espera para o povo de Israel, a atenção de todos, naquele cantinho do mundo, estava voltada para a chegada iminente de um libertador: sempre foi assim?

Na verdade, a espera por um dominador do mundo durava já durava vários séculos. A primeira referência se refaz até mesmo ao livro do Gênesis [7].

Com tempo, portanto, a ideia de um ungido do Senhor que governaria Israel vai se intensificando e se torna cada veza mais precisa: esse ungido, esse Messias, teria sido descendente de Judá, por meio do rei Davi. Porém, em 587 a.C., ocorreu a primeira grande decepção: a captura de Jerusalém por Nabucodonosor, o qual destrói o templo, saqueia os objetos sagrados, deporta a população da Judeia à Babilônia e põe fim à dinastia dos reis descendentes de Davi. A esta altura, no entanto, um profeta chamado Daniel, o último profeta do Antigo Testamento, profetiza que o Messias certamente virá. Com efeito, a profecia de Daniel é definida como Magna Prophetia: nesta (cap. 2) se proclama que

O Deus do céu fará surgir um império que nunca há de ser destruído. Será um império que jamais passará para as mãos de outro povo. Ao contrário, ele é quem há de humilhar e arrasar todos os outros impérios, enquanto ele mesmo permanecerá para sempre.

E não só isso: no cap. 7 especifica-se que aquele que há de vir será “como o Filho do homem” (no Evangelho de Mateus, o evangelho destinado às comunidades judaicas na Palestina, Jesus utiliza cerca de 30 vezes uma expressão semelhante: “filho do Homem”, usada anteriormente apenas e exclusivamente por Daniel).

No cap. 9, a profecia se concretiza então, também em termos temporais:

Setenta semanas foram determinadas em favor do teu povo e da tua cidade santa, a fim de pagar o crime, corrigir o erro, limpar o pecado, até que chegue a justiça eterna, se cumpram a visão e a profecia, e o Santo dos santos seja consagrado. Fica sabendo e compreende: desde quando a mensagem apareceu falando de reconstruir Jerusalém até o príncipe ungido sete semanas hão de passar.

Como podemos ver, a profecia que acabamos de citar é extremamente precisa. No entanto, a tradução exata para o português do termo hebraico שָׁבֻעִ֨ים (šavū‛īm, “šavū‛” para indicar o número 7 e “īm” como a desinência masculina plural) não deveria ser “semanas” (que é na verdade שבועות, ou seja šavū‛ōt, onde “ōt” se refere à desinência plural feminina), mas sim setenário: na prática, setenta vezes sete anos. Os judeus contemporâneos de Jesus entenderam a passagem corretamente, embora os estudiosos contemporâneos não pudessem compreender o cálculo exato dos tempos de Daniel: a partir de quando começou a contagem dos setenta setenários? Pois bem, descobertas recentes a Qumran possibilitaram demonstrar a estudiosos como Hugh Schonfield, grande especialista no estudo dos papiros do Mar Morto, que não só as escrituras hebraicas já estavam perfeitamente formadas no primeiro século de nossa era e idênticas àquelas que lemos hoje, mas também que os essênios, como muitos de seus contemporâneos, calcularam o tempo da Magna Prophetia. Para eles os setenta setenários (490 anos) partiam do ano 586 a.C., ano do início do exílio na Babilônia, e culminaram em 26 a.C., início da era messiânica. Tanto é que, desde esta data – se descobriu através de escavações arqueológicas –, houve um aumento nas atividades de habitação e construção em Qumran.

No entanto, não foram apenas os judeus na terra de Israel que literalmente conservaram uma expectativa que os enchia de esperança e de fermento. Também Tácito e Suetônio, o primeiro nas Historiæ e o segundo na Vida de Vespasiano, relatam que muitos no Oriente estavam esperando de acordo com suas escrituras por um dominador que viria da Judeia.

Uma estrela no Oriente?

É justamente o Oriente a nos fornecer outro elemento útil para entender por que a expectativa messiânica era tão fervorosa entre as duas épocas, isto é, o fato que também em outras culturas o advento daquele “dominador” de quem se ouviu falar até em Roma. Os astrólogos babilônicos e persas, de fato, o esperavam por volta dos 7 ou 6 a.C. [8].

Júpiter e Saturno muito próximos um do outro, 17 de dezembro de 2020 © AFP – QUENTIN SEASON / HANS LUCAS

Por quê justamente neste intervalo? Para o surgimento de uma estrela, sabemos pelo Evangelho de Mateus (cap. 2). Mas será que uma estrela surgiu realmente? A esta pergunta parece responder em um primeiro momento o astrônomo Kepler, o qual, em 1603, observou um fenômeno luminosíssimo: a aproximação, ou conjunção, dos planetas Júpiter e Saturno na constelação de Peixes. Kepler então fez alguns cálculos e estabeleceu que a mesma conjunção ocorrera no ano 7 a.C. às descobertas de Kepler se pode acrescentar também um antigo comentário rabínico, no qual se enfatizava que a vinda do Messias deveria coincidir exatamente com o momento em que ocorresse aquela mesma conjunção astral.

Ninguém, porém, na época, deu crédito à intuição de Kepler, até porque então se pensava ainda que Jesus nasceu no ano 0. Somente no século XVII outro estudioso, Friderich Christian Münter, luterano e maçom, decifrou um comentário sobre o livro de Daniel, o mesmo dos setenta setenários, no qual se confirmava por uma outra fonte a crença judaica já trazida à luz por Kepler.

É necessário, no entanto, esperar até o século XIX para confirmar o fenômeno astronômico observado por Kepler, primeiro pelos astrônomos do século XIX, depois graças à publicação de dois documentos importantes: a Tabela Planetária em 1902, um papiro egípcio no qual são registrados com exatidão os movimentos planetários e, em particular, por observação direta, a conjunção Júpiter-Saturno na constelação de Peixes, que se verificou ter sido muito brilhante; o Calendário Estelar de Sippar, uma tabela de terracota escrita em caracteres cuneiformes, de origem babilônica, onde os movimentos das estrelas são relatados exatamente no ano 7 a.C., ano em que, segundo os astrônomos babilônicos, essa conjunção teria ocorrido três vezes (29 de maio, 1º de outubro e 5 de dezembro), enquanto o mesmo evento ocorre geralmente uma vez a cada 794 anos.

Visto que na simbologia dos babilônios Júpiter representava, portanto, o planeta dos dominadores do mundo, Saturno o planeta protetor de Israel e a constelação de Peixes era o signo do fim dos tempos, não é tão absurdo pensar que os magos [9] do Oriente esperavam, tendo tido a oportunidade de predizer com extraordinária precisão, o advento de algo particular exatamente na Judéia


O destino escrito no nome

A nossa viagem pela história do homem Jesus obviamente não pode partir senão do seu nome, dado que nomen omen, sobretudo no mundo do qual o próprio Jesus provém, aquele da Antiga Israel.

Em hebraico, os dois nomes de Jesus e Josué são idênticos na pronúncia e na escrita: יְהוֹשֻׁעַ, ou então Yehoshu’a. O significado de tal nome é “Deus salva”.

Cristo pantocrator do mosaico da deisis em Hagia Sophia (Istambul, Turquia)

Jesus era um hebreu, para melhor precisar um judeu: fazia parte da tribo de Judá, ainda que tenha vivido grande parte da sua vida na Galileia, e, segundo a narração evangélica, descendia do rei Davi através do pai José, uma paternidade que, para os cristãos, é putativa, já que para estes Jesus nasceu de uma virgem chamada Maria, fecundada por obra do Espírito Santo (para os cristãos Deus é uno mas também trino, e esta Trindade é formada por três pessoas com a mesma substância: Pai, Filho e Espírito Santo) após o anuncio de um anjo, enquanto já estava prometida em casamento a José.

Em Belém da Judeia

Belém é hoje uma cidade da Cisjordânia e não tem nada de bucólico ou de algo que pareça a um presépio. Há dois mil anos, porém, era realmente uma pequena aldeia, conhecida, no entanto, por ser a pátria do Rei Davi. A partir dela, diziam as escrituras, deveria chegar o Messias esperado pelo povo de Israel [10].

Além do tempo, portanto, também se conhecia o lugar onde deveria nascer esse Messias, esperado, como vimos, pelo povo judeu e pelos vizinhos do Oriente. 

Belém, Basílica da Natividade

É curioso notar como o nome deste lugar, composto por dois termos hebraicos diferentes, signifique: “casa do pão” em hebraico (בֵּֽית = bayt o beṯ: casa; לֶ֣חֶם = leḥem: pão); “casa da carne” em árabe (ﺑﻴﺖ = bayt o beyt, casa; لَحْمٍ = laḥm, carne); “casa do peixe” nas antigas línguas sul-arábicas. Todas as línguas mencionadas são de origem semítica e, nessas línguas, da mesma raiz de três letras, é possível derivar muitas palavras ligadas ao significado original da raiz de origem. No nosso caso, aquele do nome composto de Belém, temos duas raízes: b-y-t que dá origem a Bayt ou Beth; I-h-m que dá origem a lehem ou lahm. De qualquer forma, em todos os casos, Bayt/Beth que dizer casa, mas lahm/lehem muda de significado conforme a língua.

A resposta deve ser buscada na proveniência das populações a que pertencem essas línguas.

Os judeus, como os arameus e outras populações semíticas do noroeste, viviam na chamada Crescente Fértil, isto é, uma vasta área entre a Palestina e a Mesopotâmia, onde é possível praticar a agricultura e, consequentemente, eram um povo sedentário. Sua principal fonte de sustento era, portanto, o pão, junto com os frutos do trabalho da terra.

Os árabes eram uma população seminômade da parte setentrional e central da península arábica, prevalentemente desértica. Eles, portanto, tiravam da caça e da criação o seu principal sustento, que fazia da carne o seu alimento por excelência.

Finalmente, os árabes do sul viviam nas cosas meridionais da península arábica e o seu alimento principal era o peixe. A partir disso, podemos entender porque a mesma palavra, em três línguas semíticas diferentes, tenha como significado três alimentos diferentes.

Consequentemente, pode-se notar come Belém tem, para povos distintos, um sentido aparentemente distinto, mas na realidade unívoco, já que indicaria não tanto a casa do pão, da carne ou do peixe, mas sim a casa da verdadeira comida, aquela da qual não se pode prescindir, aquela da qual depende a própria subsistência, aquela sem a qual não é possível viver.

Curiosamente, Jesus, falando de si mesmo, disse: “A minha carne é verdadeira comida e o meu sangue verdadeira bebida” (Jo 6, 51-58)

Estas descobertas da filologia semítica moderna são um exemplo de como o método histórico-crítico tenha feito notáveis progressos, graças à ajuda da filologia e do estudo do contexto linguístico, histórico e cultural na abordagem da figura do “Jesus histórico” e na compreensão de seu lugar no próprio contexto.  

No entanto, tal perspectiva nos ajuda também a entender se Jesus realmente nasceu em Belém e exatamente onde?

A história nos transmitiu que já na metade do século II, Justino, natural da Palestina, escreveu sobre a memória da caverna/estábulo passada de pai para filho. Também Orígenes, autor do século III, confirma que em Belém os próprios cristãos e não cristãos conheciam a famosa manjedoura.

Precisamente por este motivo, o imperador Adriano, com a intenção de apagar da memória os lugares judaicos e judaico-cristãos da nova província da Palestina, quis construir templos pagãos exatamente acima do lugar onde surgiam aqueles da antiga fé da região. Este fato é confirmado por Jerônimo [11], autor da primeira tradução latina de toda a Bíblia, a Vulgata (Jerônimo viveu 40 anos de sua vida em Belém) e Cirilo de Jerusalém [12].

Como em Jerusalém, no local onde os santuários estavam localizados para homenagear a morte e ressurreição de Jesus, Adriano mandou construir estátuas de Júpiter e Vênus (Jerusalém, enquanto isso, foi sendo reconstruída com o nome de Aelia Capitolina), em Belém foi plantada uma madeira sagrada a Tammuz, ou seja, Adônis.

Foi, no entanto, graças ao conhecimento do estratagema de Adriano que o primeiro imperador cristão, Constantino, e sua mãe Elena, foram capazes de encontrar os pontos exatos onde se erguiam as primitivas domus ecclesiae [13], que sucessivamente se tornaram pequenas igrejas, onde eram veneradas e guardadas as memórias e relíquias da vida de Jesus de Nazaré.

Nascimento de Jesus

Para um conhecimento aprofundado da vida de Jesus, me remeto obviamente aos evangelhos e aos livros que citamos no artigo. Oferecerei aqui alguns componentes biográficos a partir do nascimento do Nazareno.

Natal: tem sentido o que é narrado nos evangelhos?  

A partir do Evangelho de Lucas (cap. 2) sabemos que o nascimento de Jesus coincidiu com um recenseamento lançado em toda a terra por César Augusto:

Naqueles dias, saiu um decreto do imperador Augusto mandando faz o recenseamento de toda a terra – o primeiro recenseamento, feito quando Quirino era governador da Síria. Todos iam registrar-se, cada um na sua cidade.

O que sabemos a propósito? Pelo que lemos nas linhas VII, VIII e X da transcrição da Res gestae de Augusto localizada no Ara Pacis, em Roma, ficamos sabendo que César Otaviano Agusto recenseou três vezes, nos anos 28 a.C., 8 a.C., 14 d.C., toda a população romana. É neste contexto que deve se situar o famoso recenseamento narrado pelo Evangelho de Lucas (2,1).

Nos tempos antigos, a convocação de um recenseamento de toda a terra obviamente levava algum tempo para que o censo fosse efetivamente concluído. E aqui está outro esclarecimento que o evangelista Lucas nos indica: Quirino era o governador da Síria quando foi feito este “primeiro” recenseamento. Pois bem, o P. Sulpício Quirinio foi governador da Síria provavelmente desde o ano 6-7 d.C. Sobre esta questão há opiniões discordantes entre os historiadores: alguns levantam a hipótese de acordo com o que é reportado pela chama Lápide de Tivoli (em latim Lapis ou Titulus Tiburtinus) que o próprio Quirino teve um mandato anterior nos anos 8-6 a.C (o que seria compatível tanto com a data do recenseamento de Augusto quanto com o nascimento de Jesus); outros, por outro lado, traduzem o termo “primeiro” (que em latim e grego, sendo neutro, também pode ter valor adverbial, com “antes de Quirino ser governador da Síria”.

Ambas as hipóteses são admissíveis, portanto o que é narrado nos evangelhos a propósito do recenseamento que ocorreu no tempo do nascimento de Jesus é plausível.

O dia de Natal

Temos algum outro indício a propósito? Sim, a morte de Herodes o Grande, em 4 a.C., já que ele morreu naquela época e sabemos que deveriam transcorrer mais ou menos dois anos entre o nascimento de Jesus e a morte do rei, o que coincidiria justamente com o ano 6 a.C.

Adorazione del Bambino (Natividade), Giovanni Battista Tiepolo, Basílica de São Marcos, Veneza

Quanto ao dies natalis, ou seja, o verdadeiro dia do Natal de Jesus, pro muito tempo presumiu-se que fosse fixado no dia 25 de dezembro, para coincidir com o dies solis invicti, uma festa de origem pagã (provavelmente associável ao culto de Mitras), e então substituí-la com uma celebração cristã.

Recentes descoberta, desta fonte inesgotável que é Qumran, permitiram estabelecer que, no entanto, pode não ter sido bem assim e que temos motivos para festeja o Natal exatamente no dia 25 de dezembro. Sabemos, de fato, sempre pelo evangelista Lucas (o mais rico em detalhes na narração do nascimento de Jesus) que Maria engravidou quando sua prima Isabel já estava no sexto mês. Os cristãos do Ocidente sempre celebram a Anunciação a Maria em 25 de março, ou nove meses antes do Natal. Os orientais, por sua vez, também celebram a Anunciação a Zacarias (pai de João Batista e marido de Isabel) no dia 23 de setembro.

Lucas entra ainda mais em detalhes quando nos conta que no momento em que Zacarias soube que sua esposa, já em idade avançada como ele, ficaria grávida, estava servindo no Templo, sendo ele de casta sacerdotal, segundo a classe de Abias. No entanto, o próprio Lucas, escrevendo numa época em que o Templo ainda estava em operação e as classes sacerdotais seguiam seus turnos perenes, não fornece – tomando como certo – o tempo em que a classe de Abias estava em serviço.  

Numerosos fragmentos do Livro dos Jubileus, encontrado em Qumran, permitiram que estudiosos como a francesa Annie Jaubert e o israelense Shemarjahu Talmon reconstruíssem com precisão que a mudança de Abias ocorria duas vezes por ano: a primeira do dia 8 ao 14 do terceiro mês do calendário hebraico, a segunda do dia 24 ao 30 do oitavo mês do mesmo calendário, correspondendo, portanto, aos últimos dez dias de setembro, em perfeita harmonia com a festa oriental de 23 de setembro e seis meses de distância do dia 25 de março, o que levaria a supor que o nascimento de Jesus realmente ocorreu na última dezena de dezembro.

Os primeiros anos de vida de Jesus e o início de sua pregação

Prosseguimos com o excursus pela vida de Jesus de Nazaré.

Vimos que por volta do ano 6 a.C. ficaram grávidas tanto Isabel, mulher do sacerdote Zacarias da classe de Abias, quanto sua prima Maria, a qual, segundo as escrituras cristãs, era virgem e prometida a um home da casa de David chamado José.

José, por conta do recenseamento convocado pelo imperador Augusto (no qual se pedia que os homens retornassem à cidade de origem de sua família para se registrarem), foi para a cidade de David, Belém, e lá sua mulher Maria deu à luz um filho a quem chamou de Jesus.  

Os evangelhos relatam então que alguns magos vieram do Oriente depois de ver uma estrela para adorar o novo dominador do mundo, profetizado pelas antigas escrituras, e que orei Herodes, sabendo que a profecia sobre o Messias, o novo rei de Israel, estará para se cumprir, decidiu matar todos as crianças do sexo masculino come menos de dois anos (episódio do qual encontramos alguns vestígios em Flávio José, mas que ninguém mais conta; por outro lado, como aponta Giuseppe Ricciotti, em um contexto como o de Belém e seus arredores, relativamente pouco povoado, e sobretudo em uma época em que a vida de uma criança tinha pouco valor, é difícil imaginar que alguém se importasse em notar a morte violenta de alguma criança pobre e filho de “ninguém”). 

Tendo conhecido de alguma forma as intenções de Herodes (o Evangelho de Mateus fala de um anjo que avisa José em sonho), a mãe, o pai e o filho recém-nascido fogem para o Egito, onde permanecem alguns anos, até a morte de Herodes (portanto após o ano 4 a.C.).

Exceto o referimento de Lucas a Jesus, que aos doze anos, durante uma peregrinação a Jerusalém, é perdido por seus pais, que o encontram depois de três dias enquanto discutia questões doutrinárias com os doutores do Templo, nada mais se sabe sobre a infância e sobre a juventude de Jesus até a sua efetiva entrada na vida pública de Israel, que se pode situar entorno ao 27-28 d.C., quando devia ter cerca de trinta e três anos, pouco menos que João Batista, que começou seu ministério alguns meses ou um ano antes, ou algo assim.

Podemos voltar ao tempo do início da pregação de Jesus graças a uma indicação contida no Evangelho de João (o mais exato e organizado, do ponto de vista cronológico, histórico e geográfico): disputando com Jesus no Templo, os Judeus objetam: “A construção deste Templo levou quarenta e seis anos, e tu serias capaz de erguê-lo em três dias?”. Se calculamos que Herodes o Grande começou os trabalhos de reconstrução do Templo em torno aos anos 20-19 a.C. e consideramos os quarenta e seis anos da frase evangélica, chegamos exatamente ao 27-28 d.C.

Em todo caso, o ministério de João batista precedeu ligeiramente o de Jesus e, segundo os evangelistas, esse ministério representou nada mais do que uma preparação para aquele do homem da Galiléia, o verdadeiro messias de Israel. João, do qual se pensa possivelmente ter sido, no início de sua vida, um essênio, certamente rompeu, como evidenciado acima, com a rígida doutrina elitista da seita de Qumran.

João pregava um batismo de penitência, por imersão no Jordão (em uma região relativamente próxima da própria Qumran) precisamente para se preparar para o advento do libertador, o rei messias. De si mesmo disse: “Eu sou a voz de quem grita no deserto: Endireitai o caminho para o Senhor!” (Evangelho de João 1, 23). João, porém, logo foi morto por Herodes Antipa [14], filho de Herodes o Grande, a quem ele censurou por ter se casado com a esposa de seu irmão Herodíades (mãe de Salomé).

O Sermão da Montanha, Fra Angelico, Florença, Museu Nacional de São Marcos

A morte de João não impediu Jesus de continuar seu ministério. O home de Nazaré pregava a paz, o amor aos inimigos e o advento de uma nova era de justiça e de paz, o Reino de Deus, que, entretanto, não seria como os judeus, seus contemporâneos, esperavam 9e como antecipado pelas próprias profecias), isto é, um reino terreno no qual Israel seria libertado de seus opressores e dominaria outras nações, os gentios.

A pregação de Jesus, á qual retornaremos mais detalhadamente nos próximos parágrafos, a princípio pareceu muito bem sucedida, sobretudo porque, nos dizem os evangelhos, era acompanhada por um grande número de sinais prodigiosos (multiplicação de pães e peixes para milhares de pessoas; curas de leprosos, aleijados, cegos e surdos; ressurreições de mortos; transformação de água em vinho). A pregação teve, no entanto, contratempos, ou pelo menos enfrentou dificuldades consideráveis, quando o próprio Jesus começou a insinuar que ele era muito mais que um homem e se proclamou filho de Deus.

Além disso, ele foi diretamente contra a elite religiosa da época (os fariseus e os escribas, que não hesitava em definir como “víboras” e “abutres”), em proclamar que o homem é mais importante do que o sábado e o descanso sabático (e, na concepção farisaica, o sábado era quase mais importante do que Deus) e que ele mesmo era ainda mais importante do que o próprio Templo. Jesus também não era apreciado pelos saduceus, com os quais não era menos severo e que, por sua vez, junto com os herodianos, foram seus maiores adversários, pois ele falava diretamente ao povo e eles temiam que o povo se levantasse contra eles e contra os romanos.

Tudo isso durou cerca de três anos (são três as páscoas hebraicas mencionadas, sobre o relato da vida de Jesus, pelo evangelista João, como dizíamos, o mais preciso ao retornar às imprecisões dos outros três evangelistas e ao apontar detalhes negligenciados, mesmo do ponto de vista cronológico), logo depois o nazareno subiu pela última vez a Jerusalém, onde os Fariseus, os Escribas, os Saduceus e os Herodianos conspiraram para matá-lo: prenderam-no, entregaram-no aos romanos e, encenando um julgamento que foi mais uma farsa com o procurador, ou praefectus, Pôncio Pilatos, o crucificaram.

A morte de Jesus na cruz

Todos os evangelistas concordam em fiar a morte de Jesus na cruz em uma sexta-feira dentro das festividades pascais. Giuseppe Ricciotti, listando uma série de possibilidades, todas analisadas por estudiosos, chegou à conclusão de que a data exata desse evento seja o 14 Nisã (sexta-feira, 7 de abril) do ano 30 d.C., já que Jesus nasceu dois anos antes da morte de Herodes , tendo havido ele cerca de trinta anos no início de sua vida pública e contando 34 ou 35 anos no momento da sua morte.

Diz-se nos evangelhos que Jesus sofreu a morte mais atroz, aquela reservada aos escravos, assassinos, ladrões e aos que não eram cidadãos romanos: a crucificação e, entre outras coisas, depois de sofrer uma tortura igualmente terrível, a da flagelação, infligida com a terrível ferramenta chamada flagrum, um chicote com bolas de metal e ferramentas de osso que rasgava a pele e arrancava pedações de carne.

Flagrum

A cruz utilizada podia ser de dois tipos: crux commissa, em forma de T, ou crux immissa, em forma de punhal (a que conhecemos hoje, o que é provável dado que, como pelo Evangelho de Mateus, acima da cabeça de Jesus, foi fixado um titulum, um título que traz a motivação da condenação.

Pelo que lemos nos evangelhos, uma vez condenado, Jesus foi forçado a carregar a tra transversal da crux imissa (o patibulum) até um morro um pouco fora dos muros de Jerusalém (o Gólgota, exatamente onde hoje se encontra a Basílica do Santo Sepulcro, onde, segundo o procedimento romano, foi despido.

Outros detalhes da pena podemos conhecer desde o costume romano de crucificar os condenados à morte: estes eram amarrados ou pregados com os brações estendidos ao patibulum e levantados na haste vertical já fixada. Os pés eram amarrados ou pregados, por outro lado, ao poste vertical, sobre o qual se projetava uma espécie de assento de apoio.

A maior parte do peso do corpo era suportada por uma espécie de suporte (assento) saliente no mastro vertical e no qual a vítima era colocada montada: este assento não é mencionado no Novo Testamento, mas muitos escritores romanos falam dele. O apoio para os pés (suppedaneum), frequentemente representado na arte cristã, é desconhecido na antiguidade.

A morte era lenta, muito lenta, e acompanhada de um sofrimento terrível: a vítima, levantada do solo a não mais do que meio metro, estava completamente nua e podia ficar pendurada por horas, senão dias, sacudida por cólicas tetânicas, náuseas e a impossibilidade de respirar corretamente, pois o sangue não podia fluir para os membros tensos a ponto de exaustão, bem como para o coração e os pulmões, que não podiam se abrir.

Cristo antes de Pilatos, Mihály Munkácsy, 1881.

Sabemos por autores cristãos, no entanto, que a agonia de Jesus não durou mais do que algumas horas (da hora sexta à hora nona), provavelmente pela enorme perda de sangue devido à flagelação e que, após a sua morte, foi colocado em uma nova tumba, escavada na rocha perto do local da crucificação (a poucos metros de distância).

Aqui, obviamente, termina a história da vida do “Jesus histórico” e começa a do “Cristo da fé”, visto que, como contam os evangelistas posteriormente, após três dias Jesus de Nazaré ressuscitou dos mortos, aparecendo, de tempo em tempo, in primis a algumas mulheres (algo inédito naquela época, em que o testemunho de uma mulher não valia nada), à sua mãe, aos discípulos e depois, como aponta São Paulo, a mais de quinhentas pessoas ainda vivas no momento em que (em torno aos ano 50 ou 60) escrevia suas cartas, antes de subir ao céu à direita de Deus.

A mensagem de Jesus: o querigma

A história do “Jesus histórico” é a história de um fracasso, pelo menos aparente: talvez, de fato, o maior fracasso da história. Ao contrário de outros personagens que marcaram o decorrer do tempo e permaneceram gravados na memória da posteridade, Jesus não fez praticamente nada de excepcional, do ponto de vista puramente humano, ou melhor, macro-histórico: não conduziu exércitos para conquistar novos territórios, não derrotou hordas de inimigos, não acumulou quantidades de despojos e mulheres, escravos ou servos, não escreveu obras literárias, não pintou ou esculpiu nada.

Considerando, então, o modo como terminou a sua existência terrena, no escárnio, na humilhação, na morte violenta e na sepultura anônima, como fez, portanto, para citar um amigo, um “bandido assassinado pelos romanos” para se tornar a pedra angular da história? Se deveria dizer justamente aquilo que ele disse de si mesmo: “a pedra que os pedreiros rejeitaram tornou-se agora a pedra angular” (Evangelho de Mateus 20, 21)? Não é um paradoxo?

Se considerarmos o curso dos acontecimentos de sua vida de um ponto de vista “micro-histórico”, por outro lado, isto é, no que diz respeito à influência que exerceu sobre as pessoas ao seu redor, sobre aquelas que teria curado, comovido, afetado mudado, então se torna mais fácil para acreditarmos em outra coisa que ele mesmo teria dito aos seus seguidores: “vocês farão coisas ainda maiores”. Na verdade, foram seus discípulos e apóstolos que iniciaram o trabalho missionário e espalharam sua mensagem por todo o mundo. Quando Jesus estava vivo, a própria mensagem, o “evangelho”, a boa nova, não havia cruzado as fronteiras da Palestina e, de fato, pelo modo como terminou a sua existência, parecia destinada a morrer também essa.

No entanto, uma força nova e imparável, e ao mesmo tempo pequena e oculta, começou a fermentar a partir daquele cantinho do Oriente e cresceu, ao longo dos séculos, por todo o globo. De fato, no mesmo testemunho de Paulo de Tarso, a dificuldade na propagação do evangelho não residia apenas no paradoxo que ele continha, ou seja, na proclamação – algo inédito até então – que os abençoados são os os pequenos, os humildes, as crianças e os ignorantes, mas na enorme dificuldade de ter que identificar o próprio evangelho com uma pessoa que morreu na mais absoluta ignomínia e que então se dizia ressuscitada. Este mesmo anúncio, até mesmo “um Messias crucificado” é definido pelo próprio Paulo como “loucura”. A loucura seria “a proclamação do evangelho”, enquanto “os judeus pedem sinais milagrosos, e os gregos procuram sabedoria” (1 Coríntios 22-25).

Como já mencionado, esta não é a sede para tratar de tal argumento, visto que o objetivo deste trabalho é apenas um olhar para o “Jesus histórico” e não para o “Cristo da fé”, porém agora está estabelecido que um não é compreensível sem o outro, por isso darei apenas algumas indicações sobre aquilo que foi, de fato, o foco da mensagem de Jesus de Nazaré, o coração do evangelho (εὐαγγέλιον, euanghélion), que é o querigma.

O termo é de origem grega ((κήρυγμα, dal verbo κηρύσσω, kēryssō, isto é, gritar como um leiloeiro, espalhar um anúncio). E o anúncio é este: a proclamação da vida, morte, ressurreição e retorno glorioso de Jesus de Nazaré, chamado Cristo, por obra do Espírito Santo. Tal obra constitui uma intervenção direta de Deus na história, Deus que se encarna no homem, que se rebaixa ao nível das criaturas, para elevá-las à dignidade de filhos, libertando-lhes da escravidão do pecado e da morte e dando-lhes a vida eterna, em virtude do sacrifício do seu Filho unigênito.

Este processo de rebaixamento de Deus ao home foi definido como κένωσις (kénōsis), também uma palavra grega que literalmente indica “esvaziamento”: Deus se rebaixa e se esvazia, na prática se despojando de suas próprias prerrogativas e de seus próprios atributos divinos para dar-lhes, para partilhá-los com o homem, num movimento entre o céu e a terra que pressupõe =, após uma descida, também uma subida, da terra ao céu: a théosis (θέοσις), a elevação da natureza humana que se torna divina porque, na doutrina cristã, o home é o próprio Cristo [15]. Na prática, o rebaixamento de Deus leva à apoteose do homem.

O querigma, do ponto de vista histórico, constitui um dado muito precioso para compreender que, desde os primórdios do Cristianismo, este anúncio e esta identificação de Jesus de Nazaré com Deus esteve presente nas palavras e nos escritos dos seus discípulos e apóstolos, também porque é a causa da sua própria condenação à morte por parte dos notáveis do judaísmo da época (embora muitos acreditassem nele). De fato, os seus vestígios podem ser encontrados não só em todos os evangelhos, mas também e sobretudo nas mais antigas cartas paulinas (a mais antiga delas, a primeira Carta aos Tessalonicenses, data de 52 d.C.): nelas Paulo de Tarso escreve o que relata ter aprendido ele mesmo primeiramente, isto é, que Jesus de Nazaré nasceu, morreu e ressuscitou pelos pecados do mundo, segundo as escrituras.

Não há dúvida, portanto, de que a identificação do “Jesus histórico” com o “Cristo da fé” não seja tardia, mas imediata e decorrente das mesmas palavras que Jesus usou para definir a si mesmo, pois ele, de fato, atribuía à sua pessoa as profecias e imagens messiânicas de toda a história do povo de Israel.

Outro aspecto interessante é a pedagogia de Jesus de Nazaré: ele “educa” (etimologicamente este termo latino pressupões levar de um lugar a outro). De fato, a partir da análise de suas palavras, dos seus gestos, dos seus atos, ele parece quase não querer cumprir uma obra sozinha, mas desejar que aquele que decidir-se por segui-lo aprenda a agir como ele, a segui-lo na ascensão a Deus, em um diálogo constante que se concretiza nos utilizados, nos lugares, nas escrituras. Ele quase parece querer dizer, e até mesmo diz: “Aprendei de mim”. A frase que acabamos de citar está contida, entre outras coisas, em uma passagem do Evangelho de Mateus em que Jesus convida os seus seguidores a ser semelhantes a ele na mansidão e na humildade, no fazer-se pequenos e humildes (cap. 11, 29).

Na mansidão e na humildade, em não reagir com violência ou falta de respeito, sua figura permanece coerente também do ponto de vista literário, não apenas intelectual: firme, constante até a morte, nunca em contradição. Jesus ensina aos seus não só a não matar, mas a dar a vida pelos demais, não só a não roubar, mas a esvaziar-se pelos demais; não só a querer bem aos amigos, mas a amar também os inimigos; não só a ser boas pessoas, mas a tornar-se como Deus. E ao fazê-lo não indica um modelo abstrato, alguém que esteja longe no tempo e no espaço ou uma divindade perdida no alto dos céus, indica precisamente: “Faça como eu!”. Entre outras coisas, ao fazer isso, ele desmente e condena qualquer cristão que, em seu nome, possa fazer o oposto do que ele ordena.

Curiosamente, até a sua peregrinação pela terra de Israel parece ser a expressão e encarnação de sua própria missão, que começa com o batismo no rio Jordão por João Batista, no ponto mais baixo da terra (às margens do Jordão em torno a Jericó) e culmina no que era considerado no imaginário coletivo do povo judeu o ponto mais alto:  Jerusalém. Jesus desce, como o Jordão (cujo nome hebraico ירדן, Yarden, significa “aquele que desce”) em direção ao Mar Morto, um lugar deserto, vazio e baixo, para conduzir para cima, um lugar onde ele teria elevado da terra mas em um sentido totalmente diferente de como se esperaria dele.

É uma peregrinação que encontra o seu significado na própria ideia da peregrinação judaica à Cidade Santa, que acontecia nas festividades principais cantando as “canções das ascensões” enquanto se subia da planície de Esdraelon ou, mais frequentemente, da estrada de Jericó às montanhas da Judéia. Por extensão, essa ideia de peregrinação, de ascensão, encontramos no conceito moderno de עלייה (‘aliyah), emigração ou peregrinação em Israel por judeus (mas também cristãos) que vão à Terra Santa para visita-la ou vivem lá (e eles se definem como עולים, ‘ōlīm  – da mesma raiz “‘al” –  isto é ‘aqueles que ascendem’). O nome da companhia de bandeira israelense El Al (אל על), inclusive, quer dizer “para o alto” (e com um duplo significado: “alto” é o céu”, mas “alto” é também a terra de Israel, para a qual os aviões da El Al voam).

Por fim, a derrubada da própria ideia de “dominador do mundo” que os contemporâneos de Jesus esperavam se concretiza no chamado Sermão da Montanha, discurso programático da missão de Jesus de Nazaré: são beatos, e portanto felizes, não os ricos, mas os pobres em espírito; não os fortes, mas os fracos; não os potentes, mas os humildes; não aqueles que fazem a guerra, mas os operadores da paz.

E depois, por último, mas não menos importante, a grande mensagem de consolo á humanidade: Deus é pai. Mas não um pai coletivo, no sentido de um protetor deste o daquele povo eleito, mas um pai terno, um papai para cada homem, como exprime o biblista Jean Carmignac [16]:

Para Jesus, Deus é essencialmente Pai, exatamente como é Amor (1 João 4, 8).

Jesus é antes demais nada “Filho” de Deus de um modo que ninguém podia imaginar antes dele, e assim Deus é para ele “o Pai” no sentido mais rigoroso do termo. Esta paternidade do Pai e esta filiação do Filho comportam também a participação da única natureza divina […]

Este tema ocupa um lugar tão central na pregação de Jesus que a incarnação do Filho tem por objetivo dar aos homens “o poder de se tornar filhos de Deus” (João 1, 12) e que se poderia definir a sua mensagem como uma revelação do Pai (João 1,  18), a fim de ensinar aos homens que são filhos de Deius (1 João 3, 1); Esta verdade assume, pela boca de Jesus, uma tal importância que se torna a base do seu ensinamento: as obras boas têm por finalidade a glória do  Pai (Mateus 5, 16), cada um perdoe os outros como o Pai o perdoa (Mateus 6, 14-15; Marcos 11, 25-26), a entrada no reino dos céus é reservada àqueles que fazem a vontade do Pai (Mateus 7, 21), a plenitude da vida moral consiste em ser misericordiosos como o Pai é misericordioso (Lucas 6, 36) e perfeitos como o Pai é perfeito (Mateus 5, 48). […]

Desta paternidade de Deus deriva uma consequência evidente: havendo o mesmo Pai, os homens são na realidade irmãos que devem amar e tratar-se como tais. Nisto reside um princípio fundamental que inspira toda a moral e toda a espiritualidade do cristianismo e que o Evangelho já havia se empenhado em anunciar explicitamente: Vós sois todos irmãos […] pois um só é o vosso Pai, que está nos céus” (Mateus 23, 8-9)

Se conclui assim a nossa viagem em busca do “Jesus histórico”, com a consciência de que para crentes e não crentes, a sua figura permanecerá para sempre o maior e o mais fascinante mistério da história.


Tradução para o português de Matheus Fonseca





[1] Jean Guitton elaborou as suas três “soluções” refletindo sobre as três fases da investigação historiográfica sobre Jesus de Nazaré: a Primeira, a Segunda e a Terceira busca do Jesus histórico.

[2] Friedrich Nietzsche, L’Anticristo. Maledizione del cristianesimo, Adelphi, 1977, p. 73. (tradução livre do italiano)

[3] Richard Rorty, Objectivity, Relativism and Truth. Philosophical Papers, Cambridge, 1991. (tradução livre do inglês)

[4] Benedetto Croce, Perché non possiamo non dirci cristiani, Centro Pannunzio, Torino, 2008 (p. 14) (tradução livre do italiano).

[5] A Terceira busca, que segue, pois, uma Primeira e uma Segunda, é o método histórico crítico prevalente hoje em dia. Faz uso da análise e da hermenêutica do texto para se aproximar da forma original das fontes consideradas (neste caso aquelas sobre Jesus). Dela fazem parte estudiosos como o próprio David Flusser (1917-2000), autor de escritos fundamentais sobre o antigo judaísmo e convencido, como muitos outros hebreus israelenses contemporâneos, deque os evangelhos e os escritos paulinos representem a fonte mais rica e mais crível para o estudo do judaísmo do Segundo Templo, dada a perca de outros materiais contemporâneos por conta da destruição provocada nas Guerras Judaicas (entre os anos 70 e 132 d.C.)

[6] Benedetto XVI, Gesù di Nazareth, Doubleday, 2017, pp. 12-13 (Tradução livre do italiano)

[7] “O cetro não será removido de Judá, nem o bastão de comando de entre seus pés, até que venha aquele a quem pertence e para ele vá a obediência dos povos”.

[8] Atualmente é quase universalmente aceito pelos estudiosos que o ano do nascimento de Jesus é 6 a.C., devido a um erro cometido pelo monge Dionísio o Pequeno, o qual, em 533, calculou o início da Era Comum a partir do nascimento de Cristo, mas a adiou por cerca de seis anos.

[9] Em grego são definidos como μάγοι, mágoi, um termo por sua vez derivado do persa antigo magūsh, um título reservado aos sacerdotes da religião zoroastriana.

[10] “Mas tu, Belém de Éfrata, pequenina entre as aldeias de Judá, de ti é que sairá para mim aquele que há de ser o governante de Israel. Sua origem é antiga, de épocas remotas. Por isso Deus os abandonará até o momento em que der à luz aquela que deve dar à luz. Então o resto de seus irmãos voltará para os filhos de Israel. Ele se levantará para apascentar com a força do Senhor, com o esplendor do nome do Senhor se Deus E estarão bem seguros, porque agora ele é grande até os limites do país” (Miquéias, capítulo 5).

[12] San Girolamo, Lettere, 58 (Ad Paulinum presbyterum), 3 (tradução original italiana).

[12] San Cirillo di Gerusalemme, Catechesi, 12, 20: «Até alguns anos atrás, o local era coberto por uma floresta» (tradução livre do italiano).

[13] Uma domus ecclesia é literalmente uma casa/igreja: os primeiros locais cristãos foram, de fato, casas que surgiram ou já preexistentes em correspondência com lugares considerados sagrados (por exemplo, a casa de Maria em Nazaré; a casa de Pedro em Cafarnaum, etc.). As comunidades cristãs primitivas se reuniam ali para celebrar seus ritos. As casas foram aos poucos transformando-se em pequenas igrejas, expandindo-se a ponto de se tornarem, em alguns casos, verdadeiras basílicas. Este processo particular pode ser perfeitamente observado em Cafarnaum, onde arqueólogos franciscanos e israelenses descobriram aquela que é universalmente conhecida como a “casa de Pedro”, uma sala quadrangular com cerca de oito metros de cada lado, cujo piso de terra foi revestido com ao menos seis camadas de cal branca no fim do séc. I e com pavimento policromado antes do séc. V, sobre o qual se ergueu depois um elegante edifício octogonal que se apoiava exatamente sobre a sala do séc. I. Este procedimento de investigação arqueológica é idêntico ao usado em Roma para escavações na Necrópole do vaticano, sob a atual Basílica de São Pedro ou nas Catacumbas de São Sebastião.

[14] Lemos em Flávio José (Ant. 18, 109-119): “Herodes, de fato, havia matado João, cognominado Batista. Era um homem de grande piedade que exortava os judeus a abraçar a virtude, a praticar a justiça e a receber o batismo, para se tornarem agradáveis a Deus, não se contentando em evitar o pecado, mas unindo a pureza do corpo à da alma. Como uma grande multidão o seguia para ouvir a sua doutrina, Herodes, temendo que ele, pela influência que exercia sobre eles, viesse a suscitar alguma rebelião, porque o povo estava sempre pronto a fazer o que João ordenasse, julgou que devia prevenir o mal, para depois não ter motivo de se arrepender por haver esperado muito para remediá-lo. Por esse motivo, mandou prendê-lo numa fortaleza em Maquera, de que acabamos de falar, e os judeus atribuíram a derrota de seu exército a um castigo de Deus, devido a esse ato tão injusto”. Outro exemplo de uma fonte não cristã que confirma o que é narrado nos evangelhos.

[15] No prefácio do Livro V da obra Adversus haereses (Contra as Heresias), Irineu dei Lyon fala de “Cristo que, por causa do seu amor superabundante, tornou aquilo que nós somos para fazer de nós aquilo que ele é”.

[16] Jean Carmignac, Ascoltando il Padre Nostro. La preghiera del Signore come può averla pronunciata Gesù, Amazon Publishing, 2020, p. 10 (tradução livre do italiano).

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